O que ficou

O primeiro dia da viagem foi absolutamente maravilhoso. Devo admitir que, pensando nos momentos mais marcantes de cada dia, percebi que se concentravam no primeiro. Por isso, escolher o principal foi extremamente difícil, mas acabei decidindo por falar sobre a exposição da Tropicália que assistimos no centro cultural. A ideia do projeto era uma sala rodeada por telas e caixas de som, na qual se apresentaria algo sobre o tema Tropicália.

Acabei entrando na sala duas vezes e fui invadida por cores, projeções, músicas e até fatos relacionados ao que foi a Tropicália. Tocava-se um trecho de uma música de cada vez, com desenhos projetados até no chão desenhados especificamente para a canção. Na primeira vez, dancei e cantei, admirando cada segundo e cada centímetro daquela experiência. Assisti meus amigos se divertindo e me senti extremamente contente; foi uma sensação indescritivelmente sensacional. Estava sorrindo de orelha a orelha sem nem perceber.

Assim que se encerrou a primeira sessão, eu e aqueles que tinham participado fomos convidar o resto do grupo a sentir a mesma leveza. Esperamos o início do vídeo e, enquanto isso, eu me sentei em frente à tela das informações para absorver a outra parte da exposição e acabei descobrindo fatos e contextos que dizem respeito a musicas que eu gosto muito como “Alegria, alegria” e “Panis et circenses”. Uma das frases expostas, inclusive, entrou para o minidocumentário produzido pelo meu grupo por ser extremamente relacionado ao tema (“então é essa a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês vão matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendo nada, nada, absolutamente nada! Se forem em política como são em estética, estamos feitos!”, retirado do discurso de Caetano Veloso de é proibido proibir).

Olhando para trás, considero esse um dos momentos mais especiais da viagem pois, além de permitir acúmulo de conhecimentos externos que serviram para o desenvolvimento do projeto do meu grupo, foi um momento de extrema alegria, no qual não me preocupei com absolutamente nada além de aproveitar meus sentimentos momentâneos e absorver a energia positiva transmitida por aquele lugar.

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Grafite em São Mateus

O segundo dia, por sua vez, teve seu momento marcante como algo muito mais superficial, que por algum motivo é a cena que mais ficou comigo apesar do dia ter sido intenso.

Talvez tenha alguma coisa a ver com o clima predominantemente leve no qual percebi estar na época da viagem, o momento que escolhi para descrever foi o encontro do nosso grupo com um cachorro.

Andando pelas ruas de São Mateus, em meio à grafites potentes e explicações esclarecedoras, fomos interrompidos por um filhote de cachorro de rua. Assim que abaixamos para fazer carinho – com cuidado, para ele não se assustar – sua mãe veio protege-lo. Parte do grupo seguiu em frente, mas eu e algumas amigas persistimos em ganhar a confiança dos dois. Enquanto a mãe acabou por ceder aos afagos, o filhote se entregou quase imediatamente.

Vendo o grupo significativamente à nossa frente, nos forçamos a seguir o nosso caminho, mas o filhote nos seguiu.

Devo admitir que tive que lutar contra a vontade de adotar os dois.

Sei, e vou repetir, que esse momento não foi o mais forte do dia. Mas, por algum motivo, pareceu o certo de descrever como o mais marcante. Revela algum tipo de beleza e pureza que me encanta muito.

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Meus colegas dançando na exposição

O último dia da viagem foi, sem dúvidas, marcado pela peça que assistimos no início do dia, “Histeria”. Eu assisti a peça de boca aberta do começo ao fim e ainda penso nela como uma produção espetacular. Ela me tocou profundamente como mulher e como feminista. Além disso, pretendo perseguir uma carreira na área de cinema, então a atenção aos detalhes que compõem a obra me impressionaram muito e o espetáculo acabou chamando minha atenção tanto pela estrutura quanto pela mensagem.

Se eu for desenvolver a peça como o momento marcante, entretanto, terei que escrever um livro para abordar tudo que me impactou. Portanto, vou especificar o meu momento de interação com a peça:

Em um certo momento, as personagens estavam rezando e pedindo diversos elementos para Deus. Entre eles, elas desejaram “muito coito para todas as senhoras”, frase que – por motivos infantis – me fez rir. Assim, uma das personagens, percebendo minha reação, apontou para mim e desejou “muito, muito coito para aquela senhora que está se divertindo”.

Rindo ainda mais e vermelha pela exposição frente aos meus colegas e professores, respondi “amém”, e a peça seguiu em frente.

Esses poucos segundos me divertiram muito, mas segui pensando neles por um bom tempo. Eu cresci em uma casa muito aberta para discutir sexualidade, e por isso por muitas vezes situações que costumam causar constrangimento me atingem de forma mais suave. Não sei se acredito menos em coincidências ou em situações predestinadas, mas por qualquer um, ter sido escolhida para aquela interação me pareceu apropriado.

Post escrito por #Julia
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