Rincón Sapiência e a educação

 

O ano de 2017, dentro da música brasileira, foi marcado pelo álbum Galanga Livre, do rapper paulista Rincón Sapiência. Muito bem aclamada pelas críticas, a obra mistura diversos gêneros musicais, mas busca exaltar, principalmente, aqueles de matriz descrita pelo artista como “negra”.

Uma música em especial chama atenção, indiretamente, para o tema da educação. A penúltima canção do álbum, Ostentação à Pobreza, mostra Rincón tocando em assuntos relacionados às comunidades mais pobres do país, e educação é um destes temas.

Irei analisar os seguintes trechos: “Vítimas de uma exclusão, desde cedo o drama começa / Nunca pegou um livro na mão, mas desde cedo segurou as peça” // “Ilusão querer ser doutor, esperança de ser Abadia” // “Levando quase uma hora até chegar na escola”// “Educação é negada, jogaram as sementes / A terra foi regada, brotaram os indigentes /
Pra resolver geladeira vazia tão enchendo o pente”.

Os primeiros versos citados – “Vítimas de uma exclusão, desde cedo o drama começa /
Nunca pegou um livro na mão, mas desde cedo segurou as peça” – buscam explorar a origem da condição que esta parcela está inserida, justificando que a exclusão social misturada com o envolvimento precoce com o narcotráfico, triste realidade de vários jovens de classe baixa, são fatores que afastam a educação (segurar o livro na mão) destas pessoas.

Um pouco depois, no verso “Ilusão querer ser doutor, esperança de ser Abadia” o rapper nascido na periferia da capital paulista faz um breve comentário sobre sonhos de profissões valorizadas (doutor) se transformarem em esperanças de assumir altos cargos na hierarquia do tráfico (menção a Juan Carlos Abadía, notório traficante colombiano sentenciado à 250 anos de prisão). Existem diversos motivos para tal transformação, mas alguns são mais comentados, entre eles a representatividade (ou a falta dela) – afinal, é extremamente difícil seguir um caminho que nunca pareceu dar certo para uma pessoa com a qual você se identifica. Além disso, é evidente a falta de incentivo que crianças em situações como a apresentada recebem: no nosso minidoc, “Muda”, por exemplo, uma das entrevistadas afirma que já ouviu seus professores dizendo que “faculdade não chega nem em sonho”.

O terceiro fragmento analisado, possivelmente o mais explícito -“Levando quase uma hora até chegar na escola” -, toca na questão da dificuldade física de deslocamento que moradores da periferia enfrentam para se locomover de suas residências até suas escolas. Isso vai além da infância, pois existem diversos casos de pessoas que ingressam em faculdades através do processo de cotas, mas ainda assim não conseguem de fato frequentar estes espaços por conta do longo trajeto que os separa. Isso mostra que mesmo em situações em que existe a oportunidade, uma barreira física ainda é obstáculo. Assim, retorna o problema da representatividade, já que não há incentivo para que as crianças busquem caminhos que são raramente alcançados.

Por fim, os últimos versos, “Educação é negada, jogaram as sementes / A terra foi regada, brotaram os indigentes / Pra resolver geladeira vazia tão enchendo o pente”, indica a educação pública precária como o início do processo que marginaliza aqueles que dependem desta, funcionando como as sementes que geram pessoas necessitadas. A terra regada à qual o rapper se refere pode ser entendida de diversas maneiras; sendo a água o que incentiva a germinação da semente, cabe ao ouvinte decidir a quem atribuir a culpa dos problemas sociais tratados (se é que existe um culpado). Além disso, a forte antítese entre as palavras “vazia” e “enchendo” indicam que os “indigentes” citados precisam carregar armas para garantir a própria alimentação. A lógica aqui seguida vai de acordo com o pensamento de Audrey Azoulay, diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que afirma que os direitos humanos devem ser discutidos em sala de aula desde a educação básica para que todo indivíduo tenha ciência de seus direitos e do próximo para, assim, respeitá-los e lutar por eles.

A história de Danilo Albert Ambrósio, o Rincón Sapiência, que cresceu na periferia leste de São Paulo e teve que lidar com problemas e situações parecidas com as que descreve ao longo do álbum [ver Vida Longa Ponta de Lança (verso livre)] nos fez refletir sobre as causas e consequências de uma educação negada para uma parte de nossa sociedade, até que ponto essas causas e consequências são o mesmo processo cíclico e o que devemos fazer para que este ciclo seja finalmente quebrado.

Escute aqui a música!

 

Gabriel

 

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